MENSAGEM
DA ODETE NA MISSA DO CENTENÁRIO DA VOVÓ IZÔ (impressões pessoais). Queridos irmãos de
sangue e irmãos em Cristo, netos, bisnetos, tetranetos:
Quero dar alguns detalhes sobre a vida de
Maria Camelo Nogueira – conhecida por Izô – que estão na minha lembrança.
Reconheço naquela mulher o quanto ela foi compassiva, corajosa e caridosa. Ela veio ao mundo em 07-12-1912, para amar e
constituir uma família bem numerosa. Era muito compreensiva com meu pai, homem
trabalhador e de falar compulsivo. Quando ele ia descansar, fazer sua sesta,
mamãe nos avisava logo que fizéssemos silêncio para não perturbar sua
tranqüilidade.
Era amiga de todos e tinha um bom
relacionamento com as pessoas. No meu olhar de criança enxergava-a como uma
mulher sadia, risonha e serena. Gostava de fazer caridade com os mais pobres do
que nós, na medida do possível, pois nossa família era enorme. Nunca a vi se
relacionando mal com sua ajudante doméstica. Um dia eu fiz uma peraltice e a
Expedita fingiu que ia cortar meu dedo, mas com o lado “cego” da faca de
cozinha. Eu contei a mamãe que, conhecendo bastante a “Pidita” não me deu a
menor razão. Continuou amamentando o nenê numa rede. Eu saí murcha! Testemunhei uma cena da coragem dela. Papai
viajara para Fortaleza à fim de comprar sortimento para seu comércio em
Madalena, que funcionava lá em casa mesmo, num compartimento contíguo. Era uma
dia de domingo e mamãe estava no balcão, vendendo. O Narciso, conhecido na
cidade por ser um beberrão, já estava muito embriagado e implorava que ela
vendesse mais cachaça para ele. Ela
disse que não faria isso! O homem não se conformava.
Lembro-me bem; mamãe estava com o mais novinho num braço. No outro segurava um
metro, pois estava vendendo tecido a outro freguês. Eis que o bêbado segurou
num braço dela com violência. Ela retirou com força o braço da mão dele. Ele
pintou, infernizou. Puxou faca. Ela fechou o estabelecimento. E ele,
desesperado e inconsciente, ficou no terreiro da frente riscando furiosamente o
chão com a “peixeira”. Foi chamado o Delegado, Sr. Davi, que chegou se tremendo
de medo e dizendo: -“Olhe, não faça isso com a mulher do homem”. O tal Narciso nem ligou. O Delegado foi
embora, sem conseguir nada. Chamaram o Chico Macena, caboclo forte, conhecido
por sua força descomunal. Atracou-se com o bêbado, deu-lhe várias quedas e ele
Narciso foi embora bradando de ódio. Ele era morador de um próspero e conhecido
fazendeiro de Madalena, Sr. Plínio Câmara. No outro dia este obrigou-o a ir
pedir perdão de joelhos à mamãe. No dia seguinte a gente o viu lá embaixo,
vindo de encontro a nossa casa para ser perdoado. Lembro-me que só tinha uma
porta aberta e nós e umas afilhadas da mamãe estávamos dentro tremendo de medo
pois mamãe dizia que não o perdoaria. O clima era de tensão mas EU sabia que
ela ia perdoar. O homem chegou muito acanhado, ajoelhou-se e pediu perdão. Ela
falou “eu lhe perdôo, mas nunca mais faça isso a alguém”. Ele aquiesceu e foi
embora com muita humildade. Mamãe sofria o que as mulheres de seu tempo e
condição social sofriam. A questão da mulher, coletivamente falando, era
dramática naquela época. Hoje as mulheres ainda carregam um fardo pesado, mas
muitas já ocupam seu verdadeiro lugar no mundo.
Minha mãe era uma pessoa altamente
espiritualizada. Tinha leituras edificantes e era muito atenta. Quando a cidade
de Madalena passou a abrigar uma Paróquia e o irmão dela, Padre Edmundo, passou
a ser o vigário de lá, ela ficou muito feliz e veio me falar disso com grande
alegria. Era uma pessoa de comunhão diária. Papai muitas vezes chiava, mas
tinha grande convicção religiosa e não deixava de fazê-lo.
De 10 a 18 anos de idade vim estudar em
Fortaleza, no Colégio da Imaculada Conceição e morava com minha avó, também
muito fervorosa. Em férias eu ia para casa. Não sei dizer das saudades que
mamãe sentia de mim mas o fato de ter uma filha em um excelente colégio
católico era para ela motivo de satisfação.Ela sempre me mandava cartas pelo papai, que
vinha à cidade grande fazer compras para o seu comércio. Em suas cartas, aqui
acolá, ela me falava que estava grávida novamente. Eu, cá com meus botões, achava
que era menino demais mas tinha consciência de que esse assunto não era da
minha alçada. No final da sua décima sexta gravidez eu
estava grávida da minha primeira filha, que faleceu ao nascer. Na época mamãe
teve que vir à Fortaleza assistir ao enterro de seu pai, meu avô. Ela
aproveitou a ocasião e foi ao médico. Constatou que estava doente, perdendo
albumina. O médico recomendou que ela se alimentasse mais de verduras e frutas,
coisa que em Madalena era muito escassa. Ela ainda esperou uns dias em
Fortaleza para assistir à chegada da sua primeira neta. Mas demorou muito
pouco. Os filhos a esperavam em Madalena e os afazeres eram inúmeros. Aos sete
meses de gravidez ela passou mal e urinou sangue. Papai levou-a às pressas para
Quixeramobim. O médico fez o parto de emergência mas diagnosticou que ela não
iria resistir. De fato, mamãe teve hemorragia interna e sucumbiu. Antonieta
estava lá, ao lado dela e muito sentiu a sua passagem. O vigário de
Quixeramobim era seu irmão, Padre Edmundo Camelo, que deu o máximo de
assistência a todos nós no enterro. Não posso descrever a angústia que sentir
ao chegar, vinda de minha casa na Fazenda Belmonte, e vi a cidade toda
iluminada fora do horário normal porque a irmã do amado padre da região, havia
morrido. Não consegui chorar. E essa angústia me acompanhou ao longo de muitos
anos. A criancinha que ela teve viveu até um pouco antes do seu enterro e foi
com ela em seu caixão. Seu féretro foi carregado por muitas pessoas amigas que
desceram com ela as escadas da Casa Paroquial em direção ao cemitério local.
Foi doloroso ver meus irmãos pequenos ficarem órfãos de mãe.
Ela tinha quarenta e um anos.Deixou doze
filhos vivos.Na ocasião, somente quatro tinham atingido a maioridade.Oito eram adolescentes e
crianças até de dois anos.
Além dos filhos, hoje existem vinte e nove netos, vinte e dois bisnetos, e dois tetranetos (um deles é do meu neto
Bruno, o outro é da minha neta Cecília, e ainda vai nascer). No seu centenário de nascimento, podemos
constatar o legado de amor e de bondade que ela nos deixou. Obrigada por me
ouvirem.