segunda-feira, 21 de maio de 2012



MENSAGEM DA ODETE NA MISSA DO CENTENÁRIO DA VOVÓ IZÔ (impressões pessoais). Queridos irmãos de sangue e irmãos em Cristo, netos, bisnetos, tetranetos:
 Quero dar alguns detalhes sobre a vida de Maria Camelo Nogueira – conhecida por Izô – que estão na minha lembrança. Reconheço naquela mulher o quanto ela foi compassiva, corajosa e caridosa. Ela veio ao mundo em 07-12-1912, para amar e constituir uma família bem numerosa. Era muito compreensiva com meu pai, homem trabalhador e de falar compulsivo. Quando ele ia descansar, fazer sua sesta, mamãe nos avisava logo que fizéssemos silêncio para não perturbar sua tranqüilidade.
 Era amiga de todos e tinha um bom relacionamento com as pessoas. No meu olhar de criança enxergava-a como uma mulher sadia, risonha e serena. Gostava de fazer caridade com os mais pobres do que nós, na medida do possível, pois nossa família era enorme. Nunca a vi se relacionando mal com sua ajudante doméstica. Um dia eu fiz uma peraltice e a Expedita fingiu que ia cortar meu dedo, mas com o lado “cego” da faca de cozinha. Eu contei a mamãe que, conhecendo bastante a “Pidita” não me deu a menor razão. Continuou amamentando o nenê numa rede. Eu saí murcha! Testemunhei uma cena da coragem dela. Papai viajara para Fortaleza à fim de comprar sortimento para seu comércio em Madalena, que funcionava lá em casa mesmo, num compartimento contíguo. Era uma dia de domingo e mamãe estava no balcão, vendendo. O Narciso, conhecido na cidade por ser um beberrão, já estava muito embriagado e implorava que ela vendesse mais cachaça para ele.  Ela disse que não faria isso! O homem não se      conformava. Lembro-me bem; mamãe estava com o mais novinho num braço. No outro segurava um metro, pois estava vendendo tecido a outro freguês. Eis que o bêbado segurou num braço dela com violência. Ela retirou com força o braço da mão dele. Ele pintou, infernizou. Puxou faca. Ela fechou o estabelecimento. E ele, desesperado e inconsciente, ficou no terreiro da frente riscando furiosamente o chão com a “peixeira”. Foi chamado o Delegado, Sr. Davi, que chegou se tremendo de medo e dizendo: -“Olhe, não faça isso com a mulher do homem”.  O tal Narciso nem ligou. O Delegado foi embora, sem conseguir nada. Chamaram o Chico Macena, caboclo forte, conhecido por sua força descomunal. Atracou-se com o bêbado, deu-lhe várias quedas e ele Narciso foi embora bradando de ódio. Ele era morador de um próspero e conhecido fazendeiro de Madalena, Sr. Plínio Câmara. No outro dia este obrigou-o a ir pedir perdão de joelhos à mamãe. No dia seguinte a gente o viu lá embaixo, vindo de encontro a nossa casa para ser perdoado. Lembro-me que só tinha uma porta aberta e nós e umas afilhadas da mamãe estávamos dentro tremendo de medo pois mamãe dizia que não o perdoaria. O clima era de tensão mas EU sabia que ela ia perdoar. O homem chegou muito acanhado, ajoelhou-se e pediu perdão. Ela falou “eu lhe perdôo, mas nunca mais faça isso a alguém”. Ele aquiesceu e foi embora com muita humildade. Mamãe sofria o que as mulheres de seu tempo e condição social sofriam. A questão da mulher, coletivamente falando, era dramática naquela época. Hoje as mulheres ainda carregam um fardo pesado, mas muitas já ocupam seu verdadeiro lugar no mundo.
 Minha mãe era uma pessoa altamente espiritualizada. Tinha leituras edificantes e era muito atenta. Quando a cidade de Madalena passou a abrigar uma Paróquia e o irmão dela, Padre Edmundo, passou a ser o vigário de lá, ela ficou muito feliz e veio me falar disso com grande alegria. Era uma pessoa de comunhão diária. Papai muitas vezes chiava, mas tinha grande convicção religiosa e não deixava de fazê-lo.
 De 10 a 18 anos de idade vim estudar em Fortaleza, no Colégio da Imaculada Conceição e morava com minha avó, também muito fervorosa. Em férias eu ia para casa. Não sei dizer das saudades que mamãe sentia de mim mas o fato de ter uma filha em um excelente colégio católico era para ela motivo de satisfação.Ela sempre me mandava cartas pelo papai, que vinha à cidade grande fazer compras para o seu comércio. Em suas cartas, aqui acolá, ela me falava que estava grávida novamente. Eu, cá com meus botões, achava que era menino demais mas tinha consciência de que esse assunto não era da minha alçada. No final da sua décima sexta gravidez eu estava grávida da minha primeira filha, que faleceu ao nascer. Na época mamãe teve que vir à Fortaleza assistir ao enterro de seu pai, meu avô. Ela aproveitou a ocasião e foi ao médico. Constatou que estava doente, perdendo albumina. O médico recomendou que ela se alimentasse mais de verduras e frutas, coisa que em Madalena era muito escassa. Ela ainda esperou uns dias em Fortaleza para assistir à chegada da sua primeira neta. Mas demorou muito pouco. Os filhos a esperavam em Madalena e os afazeres eram inúmeros. Aos sete meses de gravidez ela passou mal e urinou sangue. Papai levou-a às pressas para Quixeramobim. O médico fez o parto de emergência mas diagnosticou que ela não iria resistir. De fato, mamãe teve hemorragia interna e sucumbiu. Antonieta estava lá, ao lado dela e muito sentiu a sua passagem. O vigário de Quixeramobim era seu irmão, Padre Edmundo Camelo, que deu o máximo de assistência a todos nós no enterro. Não posso descrever a angústia que sentir ao chegar, vinda de minha casa na Fazenda Belmonte, e vi a cidade toda iluminada fora do horário normal porque a irmã do amado padre da região, havia morrido. Não consegui chorar. E essa angústia me acompanhou ao longo de muitos anos. A criancinha que ela teve viveu até um pouco antes do seu enterro e foi com ela em seu caixão. Seu féretro foi carregado por muitas pessoas amigas que desceram com ela as escadas da Casa Paroquial em direção ao cemitério local. Foi doloroso ver meus irmãos pequenos ficarem órfãos de mãe.
  Ela tinha quarenta e um anos.Deixou doze filhos vivos.Na ocasião, somente quatro tinham atingido a maioridade.Oito eram adolescentes e crianças até de dois anos.
Além dos filhos, hoje existem vinte e nove netos, vinte e dois bisnetos, e dois tetranetos (um deles é do meu neto Bruno, o outro é da minha neta Cecília, e ainda vai nascer). No seu centenário de nascimento, podemos constatar o legado de amor e de bondade que ela nos deixou. Obrigada por me ouvirem.